quarta-feira, novembro 9

A vertigem do delírio

Todos os frios me vieram vestir. Ouço o uivar dos ventos e as bátegas de água, a baterem nas vidraças que me costumam dar luz. Tirito. Estou gelado. Não apenas dos fortes ventos feitos frios, mas sobretudo da ausência de Sóis, e das lágrimas vertidas por este céu, sempre azul, hoje vestido de negro. Continuo gelado. Vestido de frios, ventos e gotas de chuvas, feitas bátegas e tempestades. Entre mentes. Não entrementes. Como são traiçoeiras as palavras que se pronunciam da mesma forma e têm significados tão diferentes! Começo inusitadamente a aquecer. Uma surpresa! Deste-te conta de todos os meus frios e vestiste-me de ti. Sinto o teu corpo tapando o meu, escorregando lentamente, como se de uma camada de chocolate se tratasse, dando-me calor, deixando-me adivinhar os Sóis escondidos de vergonhas e impudências! Deslizas. Sinto cada pedaço teu, fazendo-me pedaços de ti, no aconchego dos teus seios, dos teus braços que me rodeiam, dos teus cabelos que me fazem cócegas e prazeres indescritíveis. Já não estou vestido com todos os frios. Estou vestido de ti, coberto de ti, protegido por ti! As negras nuvens caminham tranquilamente no firmamento. Traçam figuras grotescas umas e outras deixam-nos adivinhar paisagens belas, ou um veleiro que passa, sem náufragos, mesmo por cima daquelas montanhas. Que estranho, um Veleiro por sobre as montanhas! O grande navio, de velas ao vento, aproxima-se rapidamente. E é então que te vejo, lá bem no alto, no cesto da gávea, acenando-me sorrisos, lágrimas de pura alegria, beijos que voam nas asas de todos os ventos. Entendo agora, porque aqueci. Senti-te. Mas antes disso, pressenti-te! Como conseguiste que esse enorme veleiro vogasse por sobre as montanhas? – O calado está esverdeado, molhado de ti e de mares calmos. Apenas um véu te cobre o corpo, tão leve que me pareces uma deusa diáfana. O vento empurra o longo tecido contra ti. Que divina imagem! Todas as formas, moldadas por um longo véu , azulado etéreo, onde consigo antever todos os prazeres. Veste-te tu agora de mim; e deixa-me ficar vestido de ti. Assim: parados algures num veleiro inventado, sem frios, que voga por sobre montanhas, empurrado aqui e ali, por hercúleos braços de ébano, colossais, belos, mas suas vestes brancas. Vou subir ao cesto da gávea. Não, não precisas de descer. Faremos amor no chão, no mastro da gávea, olhando todos os frios que se vão a reboque duma nuvem……

12 Comentários:

Às 09 novembro, 2005 11:53 , Blogger Peter disse...

letrasaoacaso, mais um excelente texto, que irá certamente, fazer as delícias das tuas leitoras, duplamente satisfeitas:

- pelo texto em si;
- pela possibilidade de o poderem comentar.

 
Às 09 novembro, 2005 14:01 , Blogger Micas disse...

É sempre bom reler-te, embora o tenha lido com outro título.
É um texto muito bonito sem dúvida.

 
Às 09 novembro, 2005 14:16 , Anonymous Anónimo disse...

Não podia de deixar comentar este belíssimo texto:)

Um fantástico pintor de palavras mágicas. Bem hajas.

Um abracito para todos*

Lúcia:)

 
Às 09 novembro, 2005 14:18 , Blogger Rosario Andrade disse...

Bom dia!!!
Letras, palavras para que? Sao os TEUS textos!... Um prazer sempre renovado...

Abracicos!

 
Às 09 novembro, 2005 16:46 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Olá Zé

Que dizer deste texto! É sublime a “forma das tuas letras”

“Sóis escondidos de vergonhas
e imprudências! Deslizas”.

Na doçura dum “olhar”
basta-lhes o horizonte
um leve vestígios de mãos
quietude reflectida
na lenta memórias
dos segundos

Experimental desenho
De uma “vírgula”

E o veleiro
habita no cimo
das montanhas
são as sonatas
que ficam no vento
que o leva
a navegar

Todos os “desenhos”
são presúria
na arte
D´amar

Um beijo

 
Às 09 novembro, 2005 16:49 , Blogger elsaaaaa disse...

O delírio do amor, na poesia do mar vestindo um veleiro reencontrando uma sereia feita mulher que magestosamente me encantam ao ler-te. Que magnífico delírio! Não há frio que resista. 1 beijinho

 
Às 10 novembro, 2005 10:49 , Blogger bluegift disse...

estou desactualizada... então já se pode comentar, ou o zé esqueceu-se de fechar a caixa de comentários?

 
Às 10 novembro, 2005 10:50 , Blogger bluegift disse...

peter, detesto esta caixa de verificação de palavras, embora funcione melhor que a da sapo... que coisa mais chata!

 
Às 10 novembro, 2005 14:49 , Blogger Peter disse...

bluegift, pronto, já fechei a "caixa de verificação de palavras". Agora fica a teu cargo apagares o spam ...

 
Às 10 novembro, 2005 14:54 , Blogger Peter disse...

bluegift, andas desactualizada. O que o Zé disse foi:

"todos os meus textos de opinião terão direito ao contraditório. Ou seja, terão os comentários abertos. Apenas os que considero de indole literária, terão comentários fechados."

 
Às 10 novembro, 2005 16:43 , Blogger Ana disse...

peter, mas eu pensei que este fosse de índole literária, será um artigo de opinião?
não deixa de ser um bom texto literário, embora como disse a micas, seja repetido.
(o apagado antes deste foi meu, para acrescentar a última frase)

ana

 
Às 10 novembro, 2005 17:40 , Blogger Peter disse...

ana, isso é um assunto que terá de ser ele a responder-te.
Deixei-te um longo comentário, de resposta ao teu, sobre "O Ensino".

 

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