segunda-feira, novembro 7

Do fundamentalismo islâmico (*)

O fundamentalismo islâmico, que de facto nunca deixou de existir, ascendeu no cenário político do Oriente Médio a partir da Revolução Xiita no Irão, em 1979.
O Movimento dos aiatolás foi visto como uma grande mobilização das energias islâmicas adormecidas pela presença da modernidade.A sua repentina aparição deveu-se em grande parte ao fracasso político dos estados seculares árabes em dar combate eficiente ao Estado de Israel - visto como o grande inimigo político e teológico – e em retirar os seus países da situação de imobilismo económico.

Os fundamentalistas islâmicos consideram como sua política básica o retorno às leis corânicas, ao espírito das leis das Sagradas Escrituras do profeta Maomé. Os costumes ocidentais resultam da perversão. A modernidade é o império de Satã, que utiliza instrumentos sedutores (a música, a bebida, as boas roupas, os automóveis caros, etc.) como uma maneira de conspurcar a pureza dos verdadeiros muçulmanos.
O seu ideal político é a implantação de uma República Islâmica, um regime teocrático que seja a tradução literal da “charia”, das antigas leis corânicas inspiradas directamente na vontade do profeta.
O chefe real deste governo é Alá, sendo que os imãs e os mulás, e demais guias religiosos, apenas o representam e interpretam a sua vontade.

Isto coloca-os em oposição a muitos governos do Oriente Médio e do Norte de África, que são repúblicas seculares, governadas por militares. A hostilidade dos fundamentalistas a estes governos seculares aumenta por duas razões:
por estarem abertos perigosamente ao exterior e aos costumes ocidentais (considerados demoníacos) e por manterem relações não-beligerantes com Israel (se conciliadoras, passam a ser vistos como inimigos).

No que cabe aos costumes, os fundamentalistas advogam o radical e urgente rompimento com tudo o que lhes pareça “ocidental”. As mulheres devem voltar a usar o “chador” ou a “burka”, não devem receber instrução, nem serem atendidas por médicos homens. O ensino em qualquer nível deve dar prioridade ao religioso e as leis comuns devem acolher as regras corânicas (açoite ou lapidação para os adúlteros, execuções publicas acompanhadas de chibatadas, etc.).

Para combater a liberdade de expressão, não reconhecida no direito islâmico, os chefes religiosos lançam mão da “fatwa” (uma sentença religiosa) que pode condenar à morte o infractor. O intelectual ou escritor que redigir uma novela ou algo considerado blasfemo ou herético está sujeito a ser morto por qualquer seguidor da fé. Este estará seguro de não ter cometido um crime, porque ele foi feito em nome da pureza do Islão. Centenas de jornalistas, intelectuais e pensadores leigos, especialmente no Egipto e na Argélia, estão com as suas vidas ameaçadas devido à pena da “fatwa”. O caso mais exemplar é o que foi aplicado contra o escritor Selman Rushdie, que tem há dez anos a sua cabeça a prémio.

Desde a queda da URSS (potência ateia) os fundamentalistas tornaram os Estados Unidos o seu principal inimigo. A super-potência americana representa tudo o que eles abominam; a liberalização dos costumes, a liberdade sexual, a emancipação feminina, o culto da modernidade e a celebração da tecnologia. E, evidentemente, a pratica democrática num estado secular.

Além de serem uma ameaça permanente à peculiar cultura tradicional da região, os Estados Unidos, apoiam intransigentemente a política de Israel, seja ela dos Trabalhistas ou do Likud e mantêm a presença dos seus soldados no solo sagrado do Islão.

Metaforicamente podemos entender este enfrentar entre os fundamentalistas e os Estados Unidos, não só como um conflito ente dois mundos opostos, o do Islão tradicional e o do Cristianismo modernizado, mas igualmente como o choque entre a modernidade e a tradição, entre a vida ditada pela tecnologia e o modo pré-tecnológico de viver.

A reacção dos fundamentalistas é, acima de tudo, o repúdio de uma cultura milenar que resiste ao processo de ocidentalização. Aliás, a única que ainda o faz …

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(*) evidentemente que eles não se denominam de fundamentalistas ( ‘usüliyya” em árabe), mas sim de “mujähidün” e de defensores da “jihad”, a guerra santa. Os seus adversários por sua vez chamam-nos de “mutatarrifiün.”

5 Comentários:

Às 07 novembro, 2005 10:30 , Blogger LetrasaoAcaso disse...

Um excelente texto a abordar uma temática actualissima. Faço porém notar que no Ocidente dito democrático tb existem os fundamentalismos. Se pensarmos um pouco, não será a estrutura da Igreja fundamentalista, agarrada a dogmas parados no tempo?
Por seu turno não tem sido esta o suporte da maior parte das ditaduras?

 
Às 07 novembro, 2005 10:56 , Blogger Peter disse...

letrasaoacaso,será um tema interessante para escreveres um artigo.
Eu estava a falar do fundamentalismo islâmico.

 
Às 07 novembro, 2005 14:44 , Blogger Peter disse...

Existe “fundamentalismo” em todo e qualquer movimento religioso, qualquer que seja a religião, que pretenda interpretar a realidade de hoje segundo os antigos preceitos religiosos, renegando os valores da modernidade.
Para os fundamentalistas, o fiel deve seguir à risca as páginas dos textos sagrados da sua religião. As Escrituras (sejam elas a Bíblia, o Talmude, o Corão, ou o Hadith dos hindus) foram ditadas por Deus, logo devem ser interpretadas como sendo a Sua vontade.
Naturalmente que os fundamentalistas não aceitam o “criticismo”, isto é, o movimento intelectual teológico moderno (pelo menos desde Spinoza para cá) que diz que as palavras sagradas, devem ser interpretadas de acordo com a época e as circunstâncias em que foram escritas e não segundo a realidade actual.
No que respeita ao Corão, ele é a Lei única que regula todos os aspectos da vida em sociedade, não admitindo a existência de Constittuição, ou qualquer tipo de Código: Civil, Administrativo, Penal …
Completamente discriminativo em relação à mulher, reduzida ao interior da casa, tem igualmente, como se disse, uma atitude censória em relação à criatividade artística e intelectual.

 
Às 07 novembro, 2005 22:11 , Blogger LetrasaoAcaso disse...

Fernando, hoje estamos a fechar a edição, o que é sempre uma tarefa de loucos. Falta sempre algo,ou não se sabe onde foi colocado o texto A ou B.
Amanhã escreverei sobre o fundamentalismo.
Abraços

 
Às 07 novembro, 2005 22:49 , Blogger Peter disse...

ainda há quem trabalhe neste país!

Pontos em dúvida:

- "Ocidente dito democrático"? A "democracia" sempre teve as costas muito largas ...

- Quando falas em "estrutura da Igreja", queres dizer Vaticano?
Se "sim" concordo. Se se refere à religião católica, no seu todo, não concordo. Estamos no sec XXI, muito longe da "religião, ópio do Povo" ...

- A Igreja (qual?) "suporte da maior parte das ditaduras"?
Quais ditaduras? Fascistas, Estalinistas, Africanas, Sul-Americanas, da Monarquia Comunista da Coreia do Norte?
De facto temos o Islamismo a suportar a ditadura iraniana.

Abraços

 

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