sábado, novembro 12

A existência

“Quando eu deixar de existir, já não haverá mais rosas,
ciprestes, lábios vermelhos e vinho perfumado.
Não haverá mais alvoradas e crepúsculos, alegrias e
dores.
O universo não existirá mais,
Pois que a sua realidade depende do nosso pensamento.”

Omar Khayyam

“O mistério das cousas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio disso e que sabe a árvore?
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as cousas e penso no que os
homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.

Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:
As cousas não têm significação: têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.”

Fernando Pessoa

“A minha presença de mim a mim próprio e a tudo o que me cerca é de dentro de mim que a sei – não do olhar dos outros. Os astros, a Terra, esta sala, são uma realidade, existem, mas é através de mim que se instalam em vida: a minha morte é o nada de tudo.”

Vergílio Ferreira

13 Comentários:

Às 12 novembro, 2005 23:56 , Blogger mfc disse...

Como há pessoas capazes de condensar tanta sabedoria em curtas frases, é algo que muito admiro.

 
Às 13 novembro, 2005 00:07 , Blogger Peter disse...

mfc, por certo reparaste no "fio condutor" que une estes três textos que seleccionei.

 
Às 13 novembro, 2005 00:25 , Blogger Su disse...

a realidade/pensamento
existencia/significado
o ser/ o nada=morte

gostei de ler, gosto de ficar pensando nessas coisas e lendo e relendo e tornando a pensar

jocas maradas de mim para ti

 
Às 13 novembro, 2005 00:40 , Blogger Peter disse...

Uma achega:
- Omar Khayyam, aparece citado por Fernando Pessoa.
- Vergílio Ferreira não apreciava FP, a quem não considerava escritor, por nunca ter produzido um livro completo. Considerava-o como "escritor de pedaços". O texto é do seu romance "Aparição", nitidamente existencialista, como sabemos.

 
Às 13 novembro, 2005 00:43 , Blogger Peter disse...

Olá "su", são textos mais para reflectir, precisamente como dizes.
Bom Domingo.

 
Às 13 novembro, 2005 01:29 , Blogger Fragmentos Betty Martins disse...

É verdade Peter

Estes três homens procuraram o significado da existência, eis o que têm em comum.
Eles: escritores – poetas – matemáticos – filósofos. Estudaram uma vida inteira, deixaram grandes obras.
Descobriram eles o que tanto procuraram? Estes (e outros) são uma fonte, a que todos nós vamos beber. Saberemos nós (homem) o verdadeiro significado da existência?

"Uma vez que ignoras o que te reserva o dia de amanhã,
procura ser feliz, hoje.
Toma uma ânfora de vinho, senta-te ao luar e bebe,
Lembrando que, talvez amanhã, a lua te procurará em vão."
(Omar Khayyam, poeta persa do século XII)

Ninguém conhece quem sou
Nem eu mesmo me conheço
E, se me conheço, esqueço,
Porque não vivo onde estou.
Rodo, e o meu rodar apresso.

É uma carreira invisível,
Salvo onde caio e sou visto,
Porque cair é sensível
Pelo ruído imprevisto...
Sou assim. Mas isto é crível?

(Fernando Pessoa)

Estou só - estás só. Não penses. Não fales. És em ti apenas o máximo de ti. Qualquer coisa mais alta do que tu te assumiu e rejeitou como a árvore que se poda para crescer. Que te dá pensares-te o ramo que se suprimiu? A árvore existe e continua para fora da tua acidentalidade suprimida. O que te distingue e oprime é o pensamento que a pedra não tem para se executar como pedra. E as estrelas, e os animais. Funda aí a tua grandeza se quiseres, mas que reconheças e aceites a grandeza que te excede.

(Vergílio Ferreira)


Beijinhos

 
Às 13 novembro, 2005 10:41 , Blogger Peter disse...

Betty, muito boa escolha nos textos sobre a nossa busca incessante de "o porquê" da nossa existência.
De igual modo são textos que se interligam e em que a minha preferência vai para o de Omar Khayyam.
Bom Domingo

P.S. - Ainda conheci pessoalmente Vergílio Ferreira e a mulher, também professora do Ensino Secundário. Uma senhora polaca, Regina Koparskowsky (julgo ser assim que se escreve). Não sei se ainda é viva. A última vez que estive com o escritor foi na Expo de Sevilha.

 
Às 13 novembro, 2005 10:44 , Blogger Peter disse...

lazuli, a música foi escolhida pela Bluegift e as palavras não são minhas.
Bom Domingo :))

 
Às 13 novembro, 2005 13:29 , Blogger maria disse...

Três textos maravilhosos e a efemeriadde de tudo o que é visísel, palpável, mortal...
Quanto ao "nada", ao "tudo" ou ao caminho, que sei eu??? Que sabemos nós???
Beijinho

 
Às 13 novembro, 2005 15:47 , Blogger Peter disse...

maria, obrigado pela visita. Esperamos ver-te por cá mais vezes.
Não posso deixar de assinalar a excelente qualidade de três textos seleccionados pela "betty" e que ela transcreveu no seu comentário.

Felicidades para o teu blog, de onde regressei agora.

 
Às 13 novembro, 2005 17:13 , Blogger Fragmentos Betty Martins disse...

Peter

O meu obrigada. Pelas tuas palavras.

Beijinhos

 
Às 14 novembro, 2005 15:02 , Blogger Menina Marota disse...

"...Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino."

(Excerto Poema de Álvaro de Campos)


"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía."

("Mutatis mutandis" Poema de Luís de Camões)

... dois Poetas que amo muito e que souberam definir pela sua Vida, uma forma de existência...

Um abraço ;)

 
Às 14 novembro, 2005 20:12 , Blogger Peter disse...

menina_marota, obrigado pela tua colaboração.
No que respeita à vida de Fernando Pessoa, não me seduz. O mesmo não posso dizer da sua obra, que eu aliás conheço mal.
Quanto a Camões, é o contrário: levou uma vida que me atrai, mas a sua obra, que eu também conheço mal, não se quadra com o meu modo de ser.

Se todos gostassem do verde, o que seria do amarelo?

 

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