quarta-feira, janeiro 25

Em contrabaixo.

Tantas vezes o negro sinuoso da estrada que leva a nenhures é percorrido e outras tantas o que a ladeia é ignorado!

Os traços brancos que separam os dois sentidos colam-se uns aos outros por acção da vertigem, transformando-se em actos contínuos sem rupturas como se a interrupção de vírgulas fosse a impossibilidade da morte anunciada.

No fio do branco
: o caos.

Todos os traços – ininterruptos ou não – conduzem ao fim inexorável.

[Talvez a vida seja apenas isso: o tempo que demora a percorrer esse longo traço contínuo, ininterrupto pintado a branco – porque a morte é branca? – na superfície negra de uma estrada – de todas as estradas – desembocassem na indizível morte anunciada]

Em ambos os lados do negro, milhões de multicores e vidas finitas que teimamos em ignorar.
[A morte é o inicio de tudo]

Feito teia invisível
Do absorver salivares
: o vácuo.

Olhar as estrelas sabendo que cada uma delas tem todos os nomes em todas as línguas [porque todas as noites os amantes as baptizam de novo]

[As estrelas são projecções luminosas de todos os amantes]

Aqui sempre presente
: tudo e nada
Em melodias de notas
Alinhadas de encontro à pauta.

O saber-me na contracurva como se fosse apenas um pequeno ponto de um gráfico anestesiado e extasiado.
A percepção de que se contornada acontece o milagre da recta quase infinita e equidistante do principio e do fim.

Agora caos
: amanhã corpo.

F.M.

“Oceano Pacífico” ou “Cinco minutos de jazz” embalam o longo percurso.

Caleidoscópio:

As [tuas] multifaces de olhos enormes e belos onde há encontro e perdição.

O branco baço:

Onde me revigora uma imagem difusa e letras criptadas que sei serem minhas.

Desespero:

A ausência do mais leve sinal de vida. A voz foi.
Agora apenas o preenchimento do eco.

Ilusão:

De que braços rodearão em amplexo sem fim.

Certeza:

A in (certeza) de que os dedos se tocarão.

Esperança:

De assistir ao teu concerto [pintado em tela azul] e te achar a mais bela das belas.

Este ímpeto arrítmico de comunicar-me-te adivinhando-te formas atrás de um violoncelo ou de um contrabaixo hirsuto.

A roupa de etiqueta, Porque sim, Porque é um momento especial, tens de entender, e eu entendo que a solenidade do negro te realça formas e acende desejos.

Rebaptizei estrelas. Todas elas. Não é contudo possível evitar que todos os amantes as rebaptizem de novo.
A., B.?

[Apesar disso todas têm o teu nome]

7 Comentários:

Às 25 janeiro, 2006 20:14 , Blogger elsaaaaa disse...

Primeira! Tenho medalha! Ainda por cima que o post hoje é soberbo, fina flôr mesmo! Lindos pensamentos, ou verdades ocultas no sentir de cada um! Ou sonhos, ou encantos...depende, dos olhos e de quem os vê!E das circunstâncias, naturalmente!Um conjunto 5*. Beijinho

 
Às 25 janeiro, 2006 21:12 , Blogger zita disse...

Gostei por demais....parabens

 
Às 26 janeiro, 2006 00:39 , Blogger Betty Branco Martins disse...



"A profunda harmonia entre ela e o mundo - uma harmonia difícil, instável, porque ela insistia sempre em viver com rigor, com uma atenção que não afrouxava nunca, mesmo quando dormia - o rigor, por exemplo, com que domava ou desmanchava os sonhos, obrigando-se a lembrá-los, obrigando-os a saltar por dentro de arcos incendiados, as flores imaginadas formando finalmente um ramo, as flores de sombra, de sol, de areia, domar o vento, aprender a cavalgar o vento, pôr um risco de azul a contornar o mar, a dura acrobacia do seu corpo, ao mesmo tempo solto e geométrico, os difíceis exercícios interiores, os saltos mortais de olhos vendados sobre um fio de arame estendido entre o possível e o impossível".

(Teolinda Gersão)

Beijo...

 
Às 26 janeiro, 2006 08:54 , Blogger lunapensativa disse...

as tuas palavras são veludo.

«no nosso jardim as palavras encaixam-se, beijam-se e tocam-se
inevitavelmente, encontramo-nos num espaço e num tempo só nosso
tudo à volta não o é, nunca o foi

é o irreal, o impossível, a loucura que entra nas nossas casas intocáveis
e que por vezes se transforma num silêncio perfumado
(é quando nos sentimos menos sós, quando dizemos mais de nós)

por isso eu sei que quebrar o elo é aceitar a inquietude
as palavras transformar-se-iam em silêncio
e o silêncio intensifica tudo o que vive no nosso jardim»

um beijo do tamanho do mundo

luna

 
Às 26 janeiro, 2006 20:01 , Blogger tecum disse...

Li, reli e voltei a ler.
Confesso-me rendida. Com a devida vénia, vou fazer um copy and past.
Beijo, amigo meu.

 
Às 27 janeiro, 2006 12:54 , Blogger Musician disse...

Mas que palavras ah!
Adorei!
Beijinho*

 
Às 28 janeiro, 2006 10:47 , Blogger Peter disse...

À beleza do texto junta-se a beleza dos comentários e o conjunto é perfeito e mais belo ficará com a beleza das comentadoras.

Bom fds

P.S. - Repararam nas vezes que empreguei as palavras "belo" e "beleza"? Foi propositado ...

 

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