quinta-feira, setembro 15

O chamado “Grupo de Macau”

Este texto foi escrito por “Letras ao Acaso” num comentário a um texto seu e como resposta à minha pergunta:

“O que é o Grupo de Macau”?

É um artigo extremamente bem documentado e explicativo que nos permite (ou permite-me a mim) compreender melhor o Poder Político que nos governa, assunto que é, ou deveria ser, do interesse de todos nós.
É demasiado extenso, mas, publicando-o, transformo-o num elemento de consulta de mais fácil acesso, que valoriza o blog, do mesmo modo que valoriza o seu autor:

“A elite que subiu ao poder com António Guterres está de volta. Desde o ministro das Finanças, à Galp ou à Caixa, da escolha de Mário Soares para candidato a Presidente da República do PS aos negócios da comunicação social ou à divisão nas autarquias locais, por todo o lado se sente o peso deste grupo de personalidades, que começou por ganhar experiência de governo na Ásia e que o País conhece por "grupo de Macau". Segundo eles, António Guterres não caiu por sua causa, mas por causa dos transformistas ex-comunistas e por algum excesso de confiança de todos. Agora, depois de algumas tentativas de autonomia, o primeiro-ministro José Sócrates está cercado e o "grupo de Macau" não vai permitir que o PS volte a perder o poder. Jorge Coelho e António Vitorino são os novos Condestáveis do Reino.

Não foi o Governo de António Guterres que renovou a licença dos casinos por mais vinte anos. Foi o Governo de Durão Barroso. Não foi o Governo socialista que deu o novo casino de Lisboa à Estoril-Sol. Foi o Governo do PSD, por inspiração de Santana Lopes. E, contudo, só agora, com José Sócrates, está de volta o "grupo de Macau".
São ideologicamente conservadores. Longe deles a comum inveja nacional. Têm horizontes que as vistas do Pacífico e do Índico lhes deram. Criaram laços de amizade, profissionais e de interesse, mas sobretudo regras de lealdade, que faz deles um grupo homogéneo e transversal na sociedade portuguesa.


A Fundação do Oriente

Os últimos vinte anos da administração portuguesa de Macau produziram um conjunto de homens, que passaram a ter um entendimento diverso do interesse nacional. Rapidamente se aperceberam que não era mais possível reviver o sonho do Império Marítimo, que antes pouco durara e que sobretudo apenas servia para afastar os portugueses da realidade. Mas, sobretudo, perceberam que Portugal poderia continuar a servir de plataforma de ligação entre a Europa e a China e que, de algum modo, mais que a cultura (Freitas do Amaral poderá mesmo encerrar o Instituto Camões em Macau), aos portugueses interessava manter as ligações económicas com a China.
Pouco ficou da Fundação de Macau, nascida das últimas contrapartidas do jogo em Macau. Para a história ficará a investigação que tentou valorizar o papel dos portugueses na institucionalização do "tratado internacional" como peça essencial de direito e base do relacionamento de Portugal com os locais, substituindo, a seu tempo, a superioridade da nossa artilharia. Ficará ainda o acervo museológico, de que apenas se conhecem contornos, aliás, não muito valiosos, da Casa de Macau.
E o resto? - O resto é, sobretudo, uma geração de políticos e empresários que souberam atrair dinheiro do antigo território sobre administração portuguesa para o jogo em Portugal, através de Stanley Ho, e que, depois, antes de Rocha Vieira, se aproximou do poder e se tornou na elite política do Partido Socialista.
Desde o início, Macau constituiu, mais que uma fonte de recursos, que também houve e muito serviu para financiar a democracia em Portugal, um centro de formação dos políticos e dos altos funcionários do Estado que haveriam de ocupar os lugares deixados vagos na Administração pela voracidade da vida política nacional.
Sem compromissos do tempo da revolução, apesar de muitos deles virem da esquerda anticomunista, este conjunto de homens e mulheres aprenderam o governo do Estado, nos anos oitenta e noventa, em Macau e constituem hoje o núcleo central dos homens mais bem preparados para a política e governo do Estado, por parte do Partido Socialista.


Macau deu a experiência da governação

Foi Mário Soares o primeiro a perceber as virtualidades do grupo de Macau e dos jovens que os sucessivos governadores que para lá foram, iam formando. Depois da Revolução do 25 de Abril, a elite do Estado e empresarial foi decapitada, ou teve que emigrar para o Brasil. E foram sobretudo os funcionários das antigas colónias, os retornados, que acabaram por assegurar a continuidade do Estado e muito do pessoal político que dominaria os Governos provisórios e os Governos constitucionais. A presença dos angolanos nos governos da República está para ser estudada, assim como todo o núcleo de Moçambique reunido à volta de Almeida Santos e Manuel Bulhosa.
Com a pacificação do regime, o regresso da antiga elite política não teve qualquer impacto no sistema, ao contrário do que aconteceu na área empresarial.
Da diáspora portuguesa não há qualquer memória neste regime. À excepção do gestor Ferreira de Oliveira, vindo da Venezuela, não existem eminentes quadros, ou não se conhecem protagonistas políticos ou empresariais, com expressão significativa vindos da emigração.
Apenas Macau, na década de noventa, conseguiu produzir um conjunto de políticos e gestores que conseguiram entrar em Portugal e ocupar os quadros superiores da administração pública e do Governo, entretanto vagos pela voracidade da política portuguesa. Foi a última regeneração geracional nos socialistas.


De Carlos Monjardino a Jorge Coelho

Se a história começa com Mário Soares e Carlos Monjardino, é, sobretudo, António Guterres que se apoia na experiência e preparação dos homens de Macau para construir o seu poder na sociedade e no partido. Com ele chega ao Governo a nova geração dos homens que ganharam experiência do Estado, servindo o governo de Portugal em Macau. António Vitorino e Jorge Coelho são os mais qualificados representantes do grupo dos administradores e governantes portugueses de Macau, conhecedores do Estado e da manobra política por excelência, com a experiência de terem vivido a política no seu estado mais puro: no Oriente, onde a vida tem pouco valor e o dinheiro é a referência.
Nos anos noventa, quando a Europa, e até os EUA, se preocupavam com os direitos humanos, com a qualidade de vida e com a saúde, educação e emprego, num registo da "new e-generation", a Ásia, antes do colapso das suas economias em 1998-2001, experimentou a força do capitalismo e do lucro como incentivo ao crescimento económico e sobretudo como base da dignidade humana. É com o capitalismo, no seu extremo maior de proclamação do sucesso empresarial como regra e do lucro como lei que a Ásia descobre o seu lugar do mundo (ainda que, depois, pague o preço da sua falta de sustentabilidade e do excessivo endividamento).
É este mundo que forma homens rudes e fortes, mas, sobretudo, que têm da política a ideia do Poder - que os seduz e que querem ter e manter a qualquer preço - e que acreditam que não há nada para além do ganhar ou perder.
O niilismo capitalista transforma-se assim na lei da política nos valores de uma sociedade em crise, que há muito deixou de acreditar na Igreja, nas Forças Armadas e sobretudo no Estado e na Universidade.


Os modelos asiáticos no governo de Portugal

Com quase vinte anos de atraso chegam ao poder os modelos da Ásia, por homens que não perceberam que, apesar de tudo, o exercício da política aqui implica outras regras e novas lealdades. É aqui que o mundo desaba, quando subitamente vêem partir Vitorino para Bruxelas, logo no início e seis anos depois, vêem também o exausto Guterres abandonar o barco.
Os homens de Macau tinham visto o poder a ser infiltrado por transformistas ex-comunistas e não perceberam que essa aliança era espúria e só conduziria ao colapso do PS. Mais ainda, esses, ao contrário dos católicos do PS, que logo viram as virtualidades da ligação Católico/Macau, tentaram ser o poder alternativo ao grupo de Macau e facturar por conta do Estado.
Guterres não aguentou, foi-se embora com o pretexto das autárquicas, cedendo o poder à direita. Agora de novo no poder, os socialistas não querem cometer os mesmos erros. Não vão dividir o poder do Estado, nem mesmo dentro das famílias socialistas.
António Vitorino e Jorge Coelho não quiseram avançar. O poder está por detrás dos espelhos. Escolheram José Socrates. Este ganhou a maioria a Santana Lopes e, percebendo o envolvimento, quis apoiar-se em independentes para contrabalançar o poder das famílias socialistas. Sócrates negociou o seu poder e, por isso, sabia bem qual o preço da independência e da autonomia. Sócrates basicamente é amigo de Guterres. É um homem que vem do Aparelho. A melhor produção do antigo primeiro-ministro, que, ainda hoje, apesar de ser Alto Comissário para os Refugiados, mantém uma influência decisiva na governação de Portugal.


A influência decisiva de Guterres

Foi Guterres quem aconselhou Sócrates a tentar a independência: neutralizando o poder do grupo de Macau com um peso decisivo dado aos ex-comunistas - que passaram a controlar a importante pasta das Obras Públicas, Transportes e Comunicações - como Mário Lino, como ministro. Estrategicamente deixou o grupo de Macau de fora, no partido, colocando-o a jeito para sair derrotado nas autárquicas e desse modo diminuir-lhe a influência. Ainda por cima é um grupo de indiscutível qualidade política e com a melhor preparação técnica que o PS dispõe. O que os torna incontornáveis sempre, e portanto ainda mais ameaçam o poder do primeiro-ministro.
A solução final seria rodear o primeiro-ministro de independentes que fizessem uma barreira entre o PS as famílias socialistas e o primeiro-ministro. António Guterres é decisivo na aproximação de Freitas do Amaral a José Sócrates. A ida de Campos e Cunha e depois de um homem dos Estados Gerais, como Manuel Pinho, para pastas importantes no Governo é no fundo a tentativa de fuga para a frente do primeiro-ministro.
Sócrates acaba por ser cercado, apesar do apoio leal de Luís Patrão, o experiente ex-chefe de gabinete de António Guterres que, agora, praticamente dirige a agenda do Conselho de Ministros, fazendo a ponte entre o País, o partido, o Governo e o primeiro-ministro.


Grupo de Macau deita abaixo Campos e Cunha

Ao conseguirem mandar abaixo o ministro das Finanças, seguramente por erros próprios, e alguma imprudência de S. Bento, Sócrates acabou por ficar cercado pelo aparelho socialista, dando a sensação que, desta vez, Jorge Coelho não vai deixar perder de novo o poder, como quando aconteceu com Guterres, com o qual, aliás, Coelho mantém as melhores relações.
O próximo alvo seria Freitas do Amaral, mas este já saiu de mira e vai dedicar-se ao MNE. A cooperação com os PALOP pode ser a nova preocupação estratégica de Freitas do Amaral.
Enterrada a questão das presidenciais, Coelho acabou por impor o seu candidato - Mário Soares -, obrigando o primeiro-ministro a recuar na estratégia de promoção de Freitas do Amaral, o independente que não faria concorrência ao primeiro-ministro à esquerda, se chegasse a Belém.
Antes de ir para férias, "matar" elefantes para a terra dos Massai, o primeiro-ministro acabou por ter que dar espaço para a candidatura de Mário Soares poder avançar contra Cavaco Silva.
Claramente na condução dos acontecimentos e com a expectativa de poder voltar a influenciar a partir de Belém, o grupo de Macau não tem qualquer dúvida do que é o poder e está a dar mostras de o querer exercer. Murteira Nabo foi para a Galp, onde os italianos da ENI querem controlar, exercendo o direito de comprarem a maioria do capital. Na TAP mantiveram o gestor brasileiro, que tem conseguido aguentar a empresa e sobretudo os trabalhadores sem greves nem contestação. Para a Caixa Geral de Depósitos foi Santos Ferreira que também esteve no Aeroporto de Macau e que era vice na Estoril-Sol.
Na comunicação social, um sector que Jorge Coelho gosta e que, sobretudo, conhece bem, o PS avançou através dos espanhóis da Prisa para a TVI, e o grupo de Macau fez constar que Jorge Coelho foi decisivo para o desfecho positivo do negócio da Lusomundo.”

6 Comentários:

Às 15 setembro, 2005 12:24 , Blogger bluegift disse...

O Paulo Gorjão do Bloguítica lançou há alguns dias este repto:Lanço aqui um desafio, que peço a outros blogues a gentileza de divulgar se assim entenderem: num discurso recente, Manuel Alegre fez algumas alusões à transformação do regime em função da suposta adulteração dos mecanismos de transmissão do poder. Regime democrático ou dinástico?
O desafio que proponho aos leitores consiste em identificar os casos de laços de parentesco na política. Por exemplo, um líder de uma distrital cujo filho seja deputado. Um governador civil cujo filho faça parte dos órgãos de um partido. Um presidente da câmara cuja mulher seja ministra. E assim sucessivamente.
Os dados deverão ser enviados para o email: paulogorjao@gmail.com.
Daqui a oito dias tornarei pública uma primeira listagem.


Este artigo do Zé é bem exemplificativo deste estado de famílias e famiglias...

 
Às 15 setembro, 2005 14:02 , Blogger Peter disse...

Ora aí está uma iniciativa que merece o meu inteiro aplauso.

 
Às 15 setembro, 2005 18:25 , Blogger mfc disse...

Isto é perfeitamente tentacular.
Penso que sou uma pessoa informada e desconhecia grande parte desta teia....
Um grande abraço Peter.

 
Às 15 setembro, 2005 20:42 , Blogger Peter disse...

mfc, o comentário de "letrasaoacaso" é o de uma pessoa que, pelo seu trabalho profissional, está bem informada e documentada.
O texto é um texto de consulta que nos permite compreender os tortuosos meandros da política partidária (não digo "nacional").

 
Às 16 setembro, 2005 03:42 , Blogger lazuli disse...

já tinha lido o texto sobre o grupo de Macau, um trabalho excelente que mostra o grande nível do seu autor

 
Às 16 setembro, 2005 10:03 , Blogger Peter disse...

lazuli, preferi colocá-lo como artigo, porque não só lhe dá maior difusão (inteiramente merecida), como facilita a consulta que nos ajuda a compreender muita coisa.

A quem entregámos nós as n/vidas?

 

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