domingo, setembro 25

ALMAS PERFUMADAS

Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta.
De sol quando acorda.
De flor quando ri.
Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda.
Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça.
Lambuzando o queixo de sorvete.
Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher.
O tempo é outro.
E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus.
De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul.
Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis.
Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo.
Sonhando a maior tolice do mundo com o
gozo de quem não liga pra isso.
Ao lado delas, pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra.
Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza.
Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria.
Recebendo um buquê de carinhos.
Abraçando um filhote de urso panda.
Tocando com os olhos os olhos da paz.
Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa.
Do brinquedo que a gente não largava.
Do acalanto que o silêncio canta.
De passeio no jardim.
Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo.
Corre em outras veias.
Pulsa em outro lugar.
Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está conosco, juntinho ao nosso lado.E a gente ri grande que nem menino arteiro.


(Ana Cláudia Saldanha Jácomo)

5 Comentários:

Às 25 setembro, 2005 03:28 , Anonymous Anónimo disse...

não sei porquê apeteceu-me Mia Couto ao ler este texto.
O rio da minha infância, sotaque da terra, pronúncia da própria vida. Esse rio transcorre não no mundo mas em mim.Como se eu fora natural da água e não de lugar terreno. Às vezes flui manso, diluindo os amargos recantos, consolando as arestas da minha idade. Outras, fundo e espesso, quase imitando o fogo. Então, em sua corrente me ensombro. E me duvido. Afogar é morrer na água ou no fogo?

 
Às 25 setembro, 2005 08:42 , Blogger Peter disse...

lazuli


“Para si, meu filho, para si que estudou em escola, o chão é um papel, tudo se escreve nele. Para nós a terra é uma boca, a alma de um búzio. O tempo é o caracol que enrola essa concha. Encostamos o ouvido nesse búzio e ouvimos o princípio, quando tudo era antigamente.”

Mia Couto

“O último voo do flamingo”

 
Às 25 setembro, 2005 09:58 , Anonymous Anónimo disse...

Peter, sinto-me lisonjeada por me ter linkado. Se não lhe der muito trabalho, gostava de lhe pedir que adicioná-se ao meu nome - Costa.
Gostei muito de ler estas "Almas Perfumadas", está bem escrito e deixa-nos o "sabor" bom da vida, uma leveza. Voltarei. Beijinhos.

 
Às 25 setembro, 2005 10:20 , Blogger Peter disse...

Maria do Céu Costa, irei tratar disso. Tb a linkei no Peter's, o meu blog individual.
Bom Domingo

 
Às 25 setembro, 2005 13:03 , Blogger Peter disse...

bluegift, mandei-te um mail.
Bom Domingo

 

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