segunda-feira, julho 4

Sei que nunca soube e que nunca saberei

Sei que nunca soube e que nunca saberei
porque ninguém conhece o mundo e eu só vivi vivendo
como qualquer e como único Quis ser livre
apesar da violência do destino
Mas o que é a liberdade? Obscuramente procurei
o seu espaço e despi-me em terraços que davam para o mar
A liberdade era a pulsação da terra
e o esplendor da sua substância e das suas formas
Eu vi como uma figura da terra uma mulher despir-se numa praia
e vi-lhe o largo dorso branco a sua voluptuosa inclinação
Mas quem poderá manter a visão iluminada
entre as virilhas da sombra entre as tenazes do tempo?
Mais do que saber quis ser o lume natural
que nos transcende em ébria plenitude
de respirar a imensidade em íntimo abandono
Assim só o amor e a liberdade aliviam a tenebrosa pressão
da dura e grave quilha do destino
É esse espaço no espaço em dilatação voluptuosa
que eu procurei e algumas vezes conheci
e tantas vezes foi a maré grávida de um torso
de um ser que poderia ser um deus ou uma mulher
e que eu transformei em sílabas tremendo deslumbrado
para que na espessura da terra eu fluísse e na transparência da
[água eu fosse

[António Ramos Rosa, Deambulações Oblíquas]

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