quarta-feira, dezembro 18

Coro de Natal


Coro de Natal

 

Quem nos garante que estamos vivos

que sequer somos o que fingimos

se atravessamos ruas e praças

sempre com 'spadas entre as espáduas

e com serpentes em torno aos braços

e com cilícios em vez de cílios

e com os sonhos desarrumados

pelos sorrisos e os compromissos

desta comédia de celebrar-te

assegurando que não existes

Quem nos garante que estamos vivos

Ou não seremos somente o lixo

da grande roda que nos esmaga

da grande garra que nos agarra

do grande grito que nem gritado

por todos juntos será ouvido

Quem nos garante se neste espaço

que nos separa só o sigilo

preenche as pausas a grande pausa

de recearmos que tu existas

Quem nos garante que estamos vivos

se atravessando ruas e rios

portas e portos pontes e praças

só deparamos com os esgares

que já tiveram as nossas faces

à mesma hora nos mesmos sítios

Quem nos garante que sob as lajes

de outras cidades de outros jazigos

neste momento ressuscitados

não afirmamos que Tu existes

 

Poema de David Mourão Ferreira in "Obra Poética – 1948/1988",

a págs. 232 e 233

2 Comentários:

Às 18 dezembro, 2013 21:56 , Blogger Peter disse...

Com os meus agradecimentos a Otília Martel, a quem desejo e a toda a família um FELIZ NATAL

 
Às 18 dezembro, 2013 21:58 , Blogger heretico disse...

abraço, meu caro.

votos de Festas felizes...

 

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