sexta-feira, agosto 19

Bom dia!

Hoje ao dirigir-me para comer o rissol de camarão (dos melhores de Lisboa) e o café matinal, passei por um velhote que estava sentado num dos bancos do jardim, que normalmente atravesso.
Devia ser pessoa de oitenta e muitos anos. Nitidamente alentejano: colete, boné e uma tosca bengala de madeira.
Disse-me:

- Bom dia.

Admirado, eu que nem sequer conheço os inquilinos do prédio onde moro, respondi à saudação, parei e fui sentar-me ao lado dele. Começámos a falar e esqueci o café.

Claro que era alentejano, viúvo, sem nenhum familiar na terra, viera para Lisboa viver com uma filha divorciada e sem filhos, que morava no bairro. Passava o dia e às vezes as noites ... sozinho, sem ter ninguém com quem falar. Por isso vinha sentar-se ali a ver pessoas e sempre na esperança que alguém parasse para trocar dois dedos de conversa. Sempre era melhor do que estar emparedado vivo num depósito de velhos, a que com eufemismo chamam "lar".

Tivemos sorte:
- ele porque encontrou um patrício com quem poderia falar do seu Alentejo, que nunca mais deverá ver;
- eu porque me senti humano e me libertei da massa anónima da grande cidade, que se atropela e se empurra sem a mínima consideração para com ninguém. O lisboeta tornou-se egoísta e indiferente, não quer chatices e está-se nas tintas para com os outros. O seu umbigo é o centro do mundo.

Apesar de todo o horror e dramatismo, as populações rurais afectadas pelo flagelo anual dos incêndios, que há 20 anos (pelo menos) aguarda solução, têm-nos dado um belíssimo exemplo de solidariedade humana, "perante a terna indiferença do mundo", citando Camus e dos políticos, penso eu.

5 Comentários:

Às 19 agosto, 2005 09:53 , Anonymous BlueShell disse...

BOM DIA.

Estou de volta!
Este texto diz-me muito porque eu sei como é essa diferença.
Partilho os dois mundos...tão diferentes um do outro...

Beijos, Peter.

 
Às 19 agosto, 2005 10:22 , Blogger Peter disse...

blueshell (agora tenho de ter cuidado e tratar todos/as pelos "nicks", pois já houve reclamações sobre o meu excesso de familiaridade ...)ainda bem que já voltaste. Não te pergunto se as férias foram boas, pois são sempre boas.
De vez em quando escrevo umas coisas em estilo de reportagem jornalística e sem preocupações de fazer literatura.
Tenho a impressão que deste meu encontro quem ficou a ganhar fui eu ...
Bjs

 
Às 19 agosto, 2005 15:10 , Blogger LibeLua disse...

Lembraste-me o meu pai, que morreu antes de se confrontar com a solidão da grande cidade. Ficou a minha mãe que vive infeliz quase enclausurada, nos poucos dias em que vem visitar-me. Cria amizades na padaria, na farmácia, onde quer que vá, porque precisa de falar e a cidade não diz nada a ninguém, só ruge, só corre, só passa.
Eu própria me sinto prestes a regressar às minhas origens. Não é em vão que vivemos vinte anos no campo, num cantinho abençoado do Alentejo. Gostei muito desta tua crónica do quotidiano.

 
Às 19 agosto, 2005 17:05 , Blogger Peter disse...

libelua, é como dizes: "a cidade não diz nada a ninguém, só ruge, só corre, só passa."

 
Às 21 agosto, 2005 18:30 , Blogger amita disse...

Muito humana e sensível esta crónica. Por estes lados, ainda há pessoas como essa, que metem conversa e passam-se alguns momentos agradáveis ouvindo histórias de vidas. Gostei de te ler. Bjo

 

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