quinta-feira, agosto 18

O lábio aproxima-se



O lábio aproxima-se do que vai ser o próximo o outro lábio
e no nunca-será beija o nunca
um lábio de doçura adolescente
tão fugidiamente novo tão oferecido
como uma folha de sono e de silêncio de ser-não-ser

Sem caminho
nos flancos do que não há do que nunca poderá ser
a mão tornou-se o lábio do para-ser
e desliza sobre o lábio branco beija o puro beijo
de si própria para além de si enamoradamente branca

Ó pura proximidade fugidia
que a língua-libélula persegue em círculos
até ao infinitesimal momento em que o lábio toca e não toca o outro lábio
e no tremor de ser-não-ser beija o puro começo de um beijo e o seu fim de uma [extrema doçura.


António Ramos Rosa

8 Comentários:

Às 18 agosto, 2005 14:56 , Anonymous A. Duarte Lázaro disse...

Cada vez gosto mais desse autor, que vou conhecendo através de ti. Gostei especialmente do "ser não ser" e do "nunca será"... sempre a eterna indefinição e os paradoxos quotidianos.
Feliz surpresa ver-te no meu canto. A tua presença é rara. Não tenho vindo porque estou de férias e preocupada em arranjar um novo emprego... Também não tenho tido paciência para computadores... e os posts do Zé não me têm apelado a comentários, excepção feita aos artigos do Torrejano.
Beijinhos para ti. Espero que essas férias tenham sido agradáveis.

 
Às 18 agosto, 2005 17:15 , Blogger Peter disse...

O livro do ARR, "Génese" é novo (Fevereiro). Mea culpa o não fazer "public relations", mas acredita é por distracção.
Aqui na "blogosfera" as coisas funcionam em "circuito fechado" e acabam por ser sempre as mesmas pessoas que contactam entre si, embora haja por vezes intervenções pontuais de outros/as, que são sempre bem-vindas.
Boa sorte na procura de emprego.

 
Às 18 agosto, 2005 19:38 , Blogger Menina_marota disse...

Um dos poemas que mais gosto de ARR, é este que aqui te deixo...

"Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração."

(in "Viagem através de uma Nebulosa" - 1960)

A imagem é linda...

Jinhos ternos :)

 
Às 18 agosto, 2005 22:16 , Blogger Peter disse...

"Não posso adiar o coração" é o final perfeito para um poema maravilhoso. Não o conhecia, não se pode conhecer tudo, por isso vamos partilhando uns com os outros.

 
Às 18 agosto, 2005 22:27 , Blogger mfc disse...

Que sensualidade sobressai das palavras acertadas e certas do Ramos Rosa.

 
Às 18 agosto, 2005 23:42 , Blogger Peter disse...

mfc e a foto, "pescada" no Google é a adequada./Destaco o comentário de a.duarte lázaro (para evitar reacções que já se verificaram, passei a dirigir-me aos comentaristas pelo "nick" que utilizam, a não ser que assinem com um nome os respectivos comentários):
"Gostei especialmente do "ser não ser" e do "nunca será"... sempre a eterna indefinição e os paradoxos quotidianos."
P.S. - A observação entre parênteses não tem nada a ver com a A... Duarte Lázaro.

 
Às 19 agosto, 2005 13:09 , Blogger amita disse...

"A verdadeira viagem de descobrimento não consiste em procurar novas paisagens e sim em ter novos olhos"
Marcel Proust

Olá Peter. Perante o encanto deste poema, que se lê e relê com prazer e em cada leitura há novas descobertas, deixo-te a citação acima. Um Bjo e um bom dia

 
Às 19 agosto, 2005 15:12 , Blogger Peter disse...

Tens razão amita, é um poema que se lê e relê com prazer.
Um bom dia para ti também.

 

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