quarta-feira, novembro 12

Contra o TGV


Há da parte dos Governos, não é apanágio deste embora exagere, uma tendência autista que os leva a considerarem os cidadãos como um “bando de ignorantes”, incapazes de compreender as altas “razões de Estado”.
Ora se tal acontece e acontece, o dever do Governo e que não tem sido feito, é informar e esclarecer.
Com o BNC já soou o toque a rebate e o fogo foi circunscrito e parece estar sob controlo, a menos que um vento forte o faça voltar a propagar-se com violência. Mas e para já, mantenhamos a vigilância.

Os cidadãos preocupam-se e interrogam-se:
- Onde vai o Governo buscar o dinheiro?
E se, no que respeita ao novo aeroporto, existe compreensão quanto à necessidade da sua rápida construção - mesmo faseada e mantendo, por enquanto, o actual - sob pena de vermos Lisboa perder em relação a Madrid a sua situação de portal de entrada na Europa, com todos os enormes prejuízos inerentes, já com o TGV a opinião mais ou menos generalizada é a de ser descartável, nesta altura de grave crise financeira e também, em vários países, já económica.

Já sei, já sei que me irão chamar de “ignorante” e acenar-me com as políticas de “new deal” e o John Maynard Keynes, mas não me convencem.
O TGV, como grande obra pública, será proporcionador de empregos e estes, por sua vez, representam dinheiro no bolso dos trabalhadores, com aumento do poder de compra, impulsionador do pequeno comércio e também das grandes superfícies. E logo aqui temos Belmiro de Azevedo a ganhar, o que aliás não é criticável, aproveita-se da situação. Mas depois de construído acabou-se. Volta o desemprego e as grandes empresas que participaram na sua construção, ou forneceram o material circulante, encheram-se de milhões.

E agora? O que vamos fazer com este “brinquedo”? Quem vai andar nele? Quem vai aproveitar os seus serviços de transporte de mercadorias?
As políticas de “low cost” praticadas pelas transportadoras aéreas tudo indica que irão continuar, pois o petróleo é um “bem finito” e voltará a subir.
O TGV não tem quaisquer possibilidades de competir, numa política de preço de bilhetes, com as companhias aéreas e o serviço prestado por estas é mais rápido e económico.
No que respeita ao transporte de mercadorias, duvido que deixe de praticar-se o transporte na camionagem, sem dúvida mais barato embora mais demorado.

Então o que fazer com o “brinquedo”? É um”brinquedo” caro e gerador de prejuízos, pois o investimento nele é de carácter irrecuperável.
Talvez seja possível obrigar os altos funcionários, administradores de empresas do Estado, deputados e talvez mesmo sub-secretários, a viajarem nele. Como são muitos e as deslocações à “estranja” são assíduas, teríamos o TGV sempre cheio…

4 Comentários:

Às 12 novembro, 2008 02:20 , Blogger joshua disse...

Ah, grande Peter, que enorme primeiro contributo para a desconstrução e, aqui e ali, desmistificação mais urgente de esta questão: evidentemente que é megalómano persisitir num projecto em que até o governo do Reino de Espanha compreenderia que fizéssemos compasso de espera por razões comuns e sobejas. Negá-lo é persistir na jumentícia tragédia que nos trouxe até à pelintrice novo-riquista actual.

A Manutenção de equipamentos e a dignificação de tantos recursos decadentes, isso, sim, é bem necessário e por menos de metado do preço. O boom de emprego adveniente das obras tgvianas não compensaria o montante em juros de endividamento. Considero preliminarmente que será necessário coragem governamental para elencar uma prioridade mais prioritária. Eu escolheria, e sou suspeito dada a minha adoração por aviação e todo o entorno, as primeiras fases do novo Aeroporto de Alcochete.

No resto, cuidado e parcimónia. Há um povo exasperado de impostos abusivos, por preços incomportáveis em tudo, desempregado, despedido, mal pago para manter vivo e digno. Se nada se fizer por que sobreviva com dignidade, não megalomania nem alienação que salve o governo da realidade anunciada e prometida.

Abraço

 
Às 12 novembro, 2008 10:04 , Blogger Ferreira-Pinto disse...

Nunca me convenci da necessidade de um TGV quando temos o resto da rede de caminho-de-ferro num estado calamitoso.

Pouco entendido na matéria, pressuponho ainda que, por exemplo, a famosa ligação Porto/Vigo a ter a quase obrigatória paragem em Braga ou Guimarães (e já há quem garanta que tem de ser Barcelos, vá-se lá saber porquê embora tudo não passe de bairrismo saloio) nunca seria mais que um comboio de média-alta velocidade e nunca um TGV.

Depois, pense-se nas expropriações a que o espaço-canal do TGV obriga e, quiçá, ao que tal exigirá em matéria de gestão do território.

Por outro lado, se com Barroso aquilo eram TGV's para todo o lado, mesmo com Sócrates continuam a ser demais!

Fiquei com uma dúvida adicional, a acrescentar às que já tinha ... o nosso TGV prevê a opção mercadorias?

 
Às 12 novembro, 2008 13:02 , Blogger Peter disse...

Ferreira-Pinto

"O desconhecimento de que se podiam transportar mercadorias em linhas de Alta Velocidade induziu vários ministros e altos responsáveis a propor um modelo que não servia Portugal - o T deitado -, o que levou o nosso país a perder vários anos preciosos na construção da futura rede ferroviária."
(jornal Público de 12 de Abril de 2004)

Isto para mim é exemplo do que detesto em Portugal, como é possível que pessoas responsáveis e que formam/ram um gabinete para estudar a situação possam estar a falar, discutir, e até criar relatórios que na realidade não fazem qualquer sentido!?! De quem é a culpa? quem escolheu ou decidiu sobre estes técnicos? como é possível que pessoas, supostamente, consagradas consigam dizer, aparentemente, tantos disparates? Irreal!!

 
Às 12 novembro, 2008 13:05 , Blogger Peter disse...

Joshua

Como poderemos debater o assunto se eu coincido, ponto por ponto, contigo?

"Eu escolheria, e sou suspeito dada a minha adoração por aviação e todo o entorno, as primeiras fases do novo Aeroporto de Alcochete."

 

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