domingo, janeiro 1

Governo garante festins todos os dias

“Todos os dias serão fim de ano”. Esta decisão é irrevogável e foi decretada pelo actual governo que nem quer ouvir falar de contestação.

Assim será de esperar que ao final de cada dia tenhamos nos nossos trabalhos, nas nossas casas e nas ruas das cidades, vilas e aldeias onde vivemos um mar de fogos de artificio, como artificio é a arte de bem enganar cada um de nós e que alguns vão chamando de política.

Há uns dias atrás fui forçado a almoçar num restaurante, o que me fez constatar algo de que eu já suspeitava há muito: estes espaços são verdadeiros ninhos de política.

Vejamos: as entradas constavam de uma alheira assada numa telha portuguesa, o que revela uma inclinação de direita deste restaurante. A confirmação veio com o cozido à portuguesa que não tinha batatas. Ora a falta destas indicia um claro distanciamento do povo e uma elitilização deste prato tipicamente nacional e uma ligação profunda à extrema-direita mais retrógrada.

Ainda seria aceitável se as couves não fossem espanholas. Porém, Adérito, o dono do restaurante, parece querer fazer doutrina com esta composição. Será aceitável, as couves serem espanholas com o nome de Bruxelas? Se o vinho é oriundo da Bairrada não é manifestação de anti-semitismo? Se a isto adicionarmos a falta da salsa, não será verdadeiramente perturbador pensar que os pratos foram fabricados na China por processos marxistas? Onde está a coerência deste comportamento?

Há algum tempo atrás, Tomás Taveira dissertou sobre este mesmo assunto num artigo publicado no Expresso. Acusava o chefe de cozinha do Adérito´s de “perversão ao inculcar nas pessoas a ideia de que um aipo pode ser substituído por un cherne”, o que se pode considerar um ataque à fuga de Barroso para Bruxelas.

A verdadeira perversão porém, reside no pormenor que parece sem importância de cada prato destes ter custos elevadíssimos. Será admissível que custe 459 mil euros? Justificar-se-ia o preço ainda que com batatas de Trás-os-Montes? Se sim, quem pagaria a factura?

Alheio a toda esta questão verdadeiramente cultural parece o povo português que decidiu passar a comemorar a passagem de ano montado num engenho pirotécnico e pôr-se a milhas daqui para fora.

Não nos devemos pois admirar que no próximo final de ano, vejamos 10 milhões de portugueses a voarem em direcção a Marte.

8 Comentários:

Às 01 janeiro, 2006 18:43 , Blogger Dinada disse...

Onde se compra o bilhete?

:)

Bom Ano!

 
Às 02 janeiro, 2006 00:03 , Blogger lazuli disse...

Não tem nada a ver..mas apetece-me colocar este poema.

Puedo escribir los versos...
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo:
« La noche está estrellada,
Y tiritan, azules, los astros, a los lejos.»

El viento de la noche gira en el ciel y canta.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise,
y a veces ella también me quiso.

En noches como esta la tuve entre mis brazos...
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso,
a veces yo también la queria.

Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche...
Pensar que no la tengo.
Sentir que la he perdido...
Oír la noche inmensa,
más inmensa sin ella.

Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada
y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos
alguien canta. A lo lejos,
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercala mi mirada la busca.
Mi corazón la busca,
y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.

Nosotros, los de entonces,
ya no somos los mismos.
Ya no la quiero, es cierto,
pero cuánto la quise.

Mi voz buscaba el viento para tocor su oído.
De otro. Será de otro;
Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro.
Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta
la tuve entre mis brazos.
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y estos sean los últimos versos que yo le escribo.


Pablo Neruda- Veinte Poemas de Amor

 
Às 02 janeiro, 2006 00:26 , Blogger Joaninha disse...

BOM ANO de 2006!
Agora e por parágrafo...

Para todos os que se finam, não há dúvida que será o seu fim de ano… será mesmo o fim… e ninguém contesta o seu fim…

Será que nos enganamos? Achamos melhor que se pense que estamos enganados

Mas onde não há política? O simples gesto de bebermos um copo de água é um acto político!

Mas será que alguma vez se definiu “direita”? Nem todos os que tentam definir “esquerda” o sabem fazer muito bem… para isso terá de se definir a pureza de ambos os pólos e sem mesquinhez interpretar o conteúdo político dos mesmos.

Boa observação para demonstrar que estamos num recanto de uma aldeia imensa com imensos idiomas, dilectos…expressividade…

…e esta tem muito que se lhe diga! Lá está, quando neste recanto da imensa aldeia não temos o que pretendemos……procuramos noutro local…….

Há sempre facturas a pagar, por quem até nem sabe fazer contas…

É tudo uma forma de queimar sonhos … esta pelo menos é vistosa, e barulhenta e não se ouvem os gritos de quem tem fome, não tem casa, não pode evoluir…

E se não levarem a burocracia, a incompetência, o “não te rales” com eles, até podem fazer um bom papel, mesmo que seja em Marte…

E após este comentário parcelado, deixa-me que te diga que o teu texto está excelente.
Um bom ano com votos de que continue a ler os teus escritos.
Beijinho!

 
Às 02 janeiro, 2006 10:49 , Blogger Peter disse...

zezinho, dizes:

"Há uns dias atrás fui forçado a almoçar num restaurante, o que me fez constatar algo de que eu já suspeitava há muito: estes espaços são verdadeiros ninhos de política."

Eu não suspeito, tenho a certeza. E quem paga?
Somos nós.

 
Às 02 janeiro, 2006 18:35 , Blogger Ana Maria disse...

Zé se em Marte se viver melhor que aqui, eu vou_hihihi

Um jinho Zé e um bom Ano de 2006 com a tua perseverancia e ironia Politica sempre afiadas!

 
Às 02 janeiro, 2006 20:28 , Blogger Heloisa B.P disse...

BOM COMECO!!!!!!!
Vejo que esta' em PLENA FORMA!!!
Continue subindo as "ESCADINHAS"(eram 365! neste momento, menos DUAS!)com esse IMPETO!!!!!
................ABRACO!
Heloisa.
**************

 
Às 02 janeiro, 2006 20:46 , Blogger Micas disse...

:)) Vejo com satisfação que o teu humor acutilante e inteligente entrou o Ano em grande forma. Excelente texto.

Aproveito para te desejar (e ao resto da equipa tb) um SUPER 2006.
Beijos

 
Às 04 janeiro, 2006 13:52 , Blogger amita disse...

A brincar... a brincar...
Como este texto sério, a brincar diz tanta verdade, acho que vou apanhar o próximo transporte para Marte. Bjos

 

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