segunda-feira, novembro 21

Dádiva

A arte do impossível é tornar este possível.

A Arte é dom. São indissociáveis estas duas realidades que se constituem numa só.

[Ainda no ouvido o som da voz e um pequeno formigueiro de prazer. Sentir o lóbulo tocado pela pureza de uns lábios que adivinho quentes e húmidos, fazendo de cada segundo um espaço temporal de prazer que se prolonga para lá da mera temporalidade. É eterno]

O sentir a presença sentada ao lado, mão na mão, vagueando num qualquer tapete mágico sobre as nuvens e o cinza que vai pintando cada dia. O Sol está mais perto quando a tua voz se faz sentir junto a mim. Até nos silêncios, ou também nos silêncios este sentir que é maior do que a estrutura que me suporta, que extravasa o espaço para ser ele mesmo uma noção de espaço infinito, toca-me, toca-te, toca-nos.

A partilha do segredo e da subversão das iniquidades castrantes do homem que apenas pensa em aniquilar liberdades, vontades e desejos contrariados por normas aberrantes, são certamente para quebrar. Ultrapassar as formalidades anacrónicas é o objectivo de todos os amantes.

[Sabes como poderá ser percorrer a praia deserta numa noite de lua cheia, molhar os pés na areia banhada pelas águas intemporais, pesquisar o horizonte e adivinhar nele o infinito e a plenitude?]

Ontem não existiu. Amanhã não existe. Apenas um ponto ininterrupto que se prolonga para além da linha imaginária. Todos os imaginários ficam para lá dessa linha inexistente.
O estarmos para além do tempo, do espaço, da razão, o sermos apenas afectos, vertigem e abismos insondáveis, onde inevitavelmente o beijo acontecerá, o toque que passa além de.
Atravessarmo-nos como se fossemos impalpáveis, a fusão na invisibilidade, a troca que inexoravelmente acontecerá talvez numa praia deserta num tremendo acto de intimidade e permuta. Dou e dás. Nesse entretanto seremos apenas um, ligados pelo cordão que se quer umbilical até ao fim de todos os espaços, mesmo os temporais.

O beijo [que tu sentes] de lábios também eles molhados.


[Ainda no ouvido o som da voz e um pequeno formigueiro de prazer. Sentir o lóbulo tocado pela pureza de uns lábios que adivinho quentes e húmidos, fazendo de cada segundo um espaço temporal de prazer que se prolonga para lá da mera temporalidade. É eterno]

18 Comentários:

Às 21 novembro, 2005 23:30 , Blogger Su disse...

gostei, adorei, amei ler-te
jocas maradas cheias de sons

 
Às 21 novembro, 2005 23:46 , Anonymous Maria Taveira disse...

Sentimentos e sentires assim, são uma dávida. Estão para além do tempo.
Belissimo texto.

 
Às 22 novembro, 2005 01:39 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Olá Zé

É linda a "forma" que dás aos sentimentos através da tua escrita maravilhosa.

Um grande beijo.

 
Às 22 novembro, 2005 02:27 , Blogger lazuli disse...

É sublime o beijo da bela Guinevere. E então, tudo é infinitamente possível.
Um beijinho

 
Às 22 novembro, 2005 10:36 , Blogger Peter disse...

É extremamnte difícil, quase impossível, postar algo, depois deste maravilhoso texto.

 
Às 22 novembro, 2005 10:39 , Blogger Peter disse...

lazuli, estou com pressa. Ontem não estive por aqui à noite. Andei nos copos.
Folgo em te ver por aqui, certamente já restabelecida da gripe.

 
Às 22 novembro, 2005 13:38 , Anonymous Seaprincess disse...

Olá Peter!
Muito belo post, sensivelmente belo!
Prá isso é preciso ter mais que um Dom! É uma arte mesmo que muitas não se aprende em escolas. Pode se aprender letras e como juntá-las, mas a arte de expressar sentimentos não é para qualquer pessoa. Parabéns!
Pergunta: O que é andar nos copos?
Um abraço Seaprincess

 
Às 22 novembro, 2005 13:46 , Blogger © Piedade Araújo Sol disse...

Quero andar também nessa areia...mesmo que nao exista essa praia...

 
Às 22 novembro, 2005 14:12 , Blogger amita disse...

Corri encantada o texto de dávida plena, belíssimo de sentimentos. Corri e corro para mais um dia de trabalho não sem antes vos deixar um bjinho e uma flor para que a continuação de um bom dia de sol se cumpra. Voltarei mais tarde (Espero!:))

 
Às 22 novembro, 2005 14:19 , Blogger amita disse...

Voltei porque me esqueci de felicitar a Blue pela música escolhida cuja melodia se adapta ao texto. Raramente ouço as músicas... somente leio os textos... desta vez... calhou!!!! Um bjo e uma flor

 
Às 22 novembro, 2005 15:00 , Anonymous Maria Papoila disse...

Obrigada pela tua visita ao meu campo! Este sentir está de arrepiar a alma! Gostei muito desta conversa sobre sentimentos! Beijo

 
Às 22 novembro, 2005 15:15 , Blogger Peter disse...

seaprincess, o "post" é do "letrasaoacaso".
"Andar nos copos" é tomar bebidas alcoólicas, em ambiente adequado. Bebi meia garrafa de whisky e não sei como trouxe o carro.
Obrigado pela sua visita. Logo à noite vou espreitar o seu blog, sempre bonito.

 
Às 22 novembro, 2005 17:01 , Blogger dulce disse...

Passei por aqui e gostei de te ler.
Beijos.

 
Às 22 novembro, 2005 18:45 , Blogger lazuli disse...

boa tarde, reler esta "dádiva" do letrasaoacaso nunca é demais.
Peter, com que então nos copos? Quem diria:)
Ainda restam uns micróbios resistentes a fazer subir a temperatura, só por isso nao te mando beijinhos.

 
Às 22 novembro, 2005 19:45 , Blogger Menina_marota disse...

"...Até nos silêncios, ou também nos silêncios este sentir que é maior do que a estrutura que me suporta, que extravasa o espaço para ser ele mesmo uma noção de espaço infinito, toca-me, toca-te, toca-nos."

... não existem palavras, que eu consiga dizer, para além deste texto...

Um abraço e boa semana ;)

 
Às 22 novembro, 2005 19:49 , Blogger elsaaaaa disse...

Que inspiração divinal onde as tuas palavras são melodia, dançam no prazer e terminam na minha imaginação. lindo. Continua bem Zézinho, bj

 
Às 22 novembro, 2005 21:41 , Anonymous Maria do Céu Costa disse...

Um texto que transmite, num beijo um desejo eterno comprometido em afectos. Bonito texto.

Beijinhos.

 
Às 23 novembro, 2005 11:08 , Blogger bluegift disse...

Um belo texto para começar a semana :)

 

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